Domingo, Maio 06, 2007

Protestos, Ética e o Espírito do Capitalismo


João achou que precisava de um notebook. Era engenheiro e tinha uma pequena empresa com um sócio. Poderia fazer parte do trabalho em casa, mostrar projetos aos clientes em suas visitas. Fez as contas, aperto um pouco aqui, ali, e em três meses, tenho o dinheiro. Sandra não vai se importar, é pra facilitar nossas vidas, ela também poderia usá-lo, fazer pesquisas, preparar suas aulas. Finalmente iriam trocar aquela lata velha que tinham em casa. Era de Sandra, já tinha uns quatro anos, esse tempo para a informática é uma eternidade, parecia um dinossauro já, amarelado, em cima da mesa no quarto que servia de escritório. Quando se casaram, um ano e meio atrás, alugaram a casa. O bairro era bom, tranqüilo, o aluguel razoável. Tinha dois quartos, um para eles, outro para o escritório. Filhos? Não! Dão muito trabalho, fora os gastos. Resolveram deixar pra depois. Ainda eram jovens, 26 ele, 28 ela. Pensariam nisso depois, com uns 30. O quarto então virou escritório. Tinha o velho computador, uma outra mesa para escrever, uma estante. Os livros eram de Sandra, comprava aos montes nos sebos. Servia para as pesquisas dela, história, arte, literatura. João sempre achou meio sacal, mas respeitava a mulher, achava-a inteligente. Ele sempre preferiu as revistas, jornais, são mais dinâmicos, dizem tudo rápido, só o necessário, e o moderno. E ainda têm umas propagandas, numa das quais viu o notebook.

Amor, sabe a Ana, aquela minha colega? Sei. Ela comprou um notebook. É mesmo... onde? De qual marca? Quanto ela pagou? Não sei, não ligo muito pra essas coisas, é tão inútil... eu, por exemplo, me viro bem com o nosso computador, e lá na escola dá pra usar os laboratórios também... acho que ela comprou só pra exibir...se eu tivesse o dinheiro, faria um curso. Curso de quê? Ah.. sei lá, tem vários por aí, é bom se especializar, né, já que não dá pra fazer o doutorado. Já falei pra você fazer o doutorado, pára de trabalhar, estuda. E o meu salário? A gente se vira... a empresa está indo bem. Até parece... Está dizendo que eu não sou capaz?? Não! Calma... só quero dizer que com o que você ganha não dá pra juntar dinheiro pra nossa casa. A gente dá um jeito! Até você terminar o doutorado. Mas é muito tempo, você quer ter filhos sem a nossa casa própria? Filhos?? pensei que fôssemos esperar. E esperamos, mas até eu conseguir acabar meu doutorado agora, já vou estar com uns 33. Nossa! É, meu amor, estamos ficando velhos.
João desistiu do sonho de comprar um notebook. Mas depois lembrou que seu sócio tinha acabado de comprar um. Droga, se eu não fosse casado ainda. Podia morar com meus pais, economizaria. Mas amava Sandra. Ela era seu sonho.
Você viu o que o Serra fez com os estudantes? Vi qualquer coisa no jornal, eles invadiram não sei o que né, você vai ver, não vai dar em nada. Não gosto que você fale assim. Por que não? Porque você nunca ligou pra essas coisas, eles estão tentando defender um direito. Eu sei, querida, mas só estou dizendo que no fim, vai dar na mesma. Pode ser que não, pode ser que melhore alguma coisa. O que eles querem, mais verbas? Não exatamente, é sobre uns decretos que tiram a autonomia das universidades, o movimento estudantil está preocupado com o futuro, a situação vai piorar, o governo devia se preocupar mais com a educação. É verdade, mas também devia se preocupar com a saúde, a segurança, além da educação das crianças, são coisas mais urgentes.
Sandra pensou por um momento. Simpatizava com os estudantes, mas João tinha certa razão, havia outras coisas pra resolver. Talvez os estudantes não pensassem no resto. Sempre achou a universidade distante da realidade dos problemas. Lembrou que participava de palestras, manifestações, mas mesmo assim não tinha contato com problemas como a fome, a criminalidade, a precariedade da saúde publica. As calamidades atingiam-na pouco. Sua revolta sempre fora teórica apenas.
João era um homem prático, mas não era insensível aos problemas. Queria fazer algo, mas não sabia como. Achava que os estudantes estavam certos, mas via que não adiantava defender uma causa específica, e ganhá-la, se tudo ao redor estava desmoronando. Sentia-se inconformado com a realidade do país em que vivia. Por vezes sonhava em alterar essa realidade, fazer alguma coisa que ajudasse o povo. Outras vezes sonhava em ir embora do país, mas nunca fora brilhante. Nenhuma multinacional o escolhera, nunca conseguira nenhuma bolsa pra estudar fora.
Ambos pensavam em tudo isso, mas logo voltavam à sua realidade direta. Amavam-se e embora discutissem às vezes tinham planos em comum. A casa, os filhos, o doutorado, o notebook. Esses sonhos lhes consumiam o tempo, a energia. Trabalhavam muito, a empresa estava realmente indo bem e sabia que convenceria Sandra a fazer o doutorado, e que ela conseguiria. Daria aulas numa faculdade, faria suas pesquisas. Os filhos viriam depois, com os 33 de Sandra mesmo. Teriam a casa, e dois notebooks, os filhos estudariam bem, fariam faculdade, encontrariam um jeito de ajudar a quem precisasse, tudo daria certo. Era justo, pelo tanto que trabalhavam. O mundo continuaria evoluindo como um sonho. Os problemas também existiriam, mas um dia as pessoas perceberiam e corrigiriam suas atitudes. Afinal, era só olhar para a Europa, todos vivendo bem, numa sociedade justa e organizada. Um dia o Brasil chegaria lá. Era só questão de tempo.
E assim, atos justificados, consciência limpa, futuro pronto, viviam sua rotina feliz. Não percebiam, mais do que vagamente, a civilização desmoronando ao seu redor, o relevo social cada vez mais acentuado, o mundo se esgotando, numa escala de tempo cada vez mais perceptível. Alguns estudantes pendurados em galhos, tentando evitar que os frutos caiam no chão, enquanto a grande árvore é atingida violentamente por um machado invisível. Têm a intenção boa, esses jovens, mas cairão, eles e os frutos, junto com a árvore, se não ajudarem a segurá-la também.
Mais que isso, talvez apenas eles, que tanto estudam, possam descobrir quem segura este machado, torná-lo visível, encará-lo de frente, e acabar com ele.

4 comentários:

Tigre_02 disse...

Sutil... mas verdadeiro

Traça_03 disse...

Sutil e verdadeiro. Que cada um não seja abajur de si mesmo.

Tigre_03 disse...

sutil ou verdadeiro! É a divisão social do trabalho. É a gente se acabando e sabendo disso.

Beatriz disse...

Primeira vez q leio algo q retrata tão bem uma realidade que sempre me incomodou: apesar da preocupação, a universidade está em uma espécie de mundo paralelo, como todas as pessoas atualmente.