domingo, abril 29, 2007

O menino e o ralo

Hoje vi um menino. Ele brincava no pátio, pisando as grades que o rodeiam, aqueles longos ralos por onde corre a água da chuva. Era jovem, muito jovem o menino, e para ele, eram enormes aqueles ralos, pisava-lhe as grades com os dois pés e ia por ali andando, nas pontas a grade bambeava e batia de volta no chão, fazendo aquele barulho de metal, e ele ria, ria e dava voltas e mais voltas sobre o ralo.

Lembro também dos ralos de minha infância, quando os pisava eu também com os dois pés e sobre eles andava, ouvindo os sons que faziam as grades ao chocarem-se com as bordas, quantas vezes ouvi minha mãe dizer que qualquer dia eu caía nalgum daqueles buracos. Lembro de quando inauguraram um calçadão por lá, que tinha uns bueiros enormes no meio, umas grades retangulares muito mal encaixadas nas bordas e que davam num bueiro fundo em que cabia em pé um menino do meu tamanho na época. Era um terror. Mas fazia um barulho tão bonito ao ser pisado, quando as grades batiam, que não podia deixar de pisá-los, às vezes mesmo pular sobre eles, quando não olhavam as mães.

Vendo ali o menino, que é muito mais jovem do que eu nessa época, lembro dos ralos de minha infância, ele ainda aí, dando voltas e voltas nos ralos que dão voltas no pátio em frente à repartição. Vejo-o rir enquanto caminha sobre aqueles ralos onde hoje apago meus cigarros, até acendi o de seu pai que nem imagina que também eu me divertia sobre os ralos dos pátios de minha infância, onde outros homens amargos apagavam seus cigarros. Ele dizia não vá longe, e o menino ia. Uma hora olhou para mim e disse é só falar. Eu ri e concordei. É mesmo só falar.

Meu cigarro acabou, e eu jogo a bituca naquele ralo onde agora reina o menino.

O menino ali, nos ralos, se diverte.

E eu tenho que voltar à porra da repartição.

sexta-feira, abril 20, 2007

Soneto de Criação

Deus te fez numa fôrma pequenina
De uma argila bem doce e bem morena
Deu-te uns olhos minúsculos de china
Que parecem ter sempre um olhar de pena.

Banhou-te o corpo numa fonte fina
Entre os rubores de uma aurora amena
E por criar-te assim, leve e pequena
Soprou-te uma alma calma, cálida e divina.

Tão formosa te fez, tão soberana
Que dar-te aos anjos por irmã queria
Mas ao plasmar-te a carne predileta

Deus, comovido, te criara humana
E para tua justa moradia
Atirou-te nos braços do poeta.

de Vinicius de Moraes , que poderia ter ido ao bar com algum dos tigres, se os conhecesse.

O que poderia ter sido

Quando toda uma vida valeria a pena de novo,
fez-se novamente o pranto,
com tudo o que poderia ter sido,
com tudo o que dela já se fez.

Quando poderiam voltar os sorrisos, os flertes,
as bobagens indispensáveis do viver,
bateste com a porta na minha frente,
fizeste meu peito romper.

Quando o futuro tornou-se breu
no olho mágico da porta que me ofereceste,
só o que fiz foi sentar encolhido, com a cabeça entre as pernas e,
com a voz grave e triste, dizer:
- Um dia ela vem.
E até hoje espero.


O tigre 3, sempre esperando, a besta.

terça-feira, abril 10, 2007

A traça e a boneca

O coração de pano rasgou-se outra vez.
Linha e agulha precisam andar depressa. Mais um remendo do amor que não foi.
Pobre coração de pano. Antes fosse de seda, mas é do mais vagabundo algodão. A traça faz a festa enquanto a boneca chora, sozinha, esquecida, em meio à tantos outros brinquedos usados.
A boneca só precisava de carinho, mas como era boneca velha foi recusada até pela traça.
Triste vida de boneca de pano sem dono. Bem feito, fosse boneca de porcelana todo mundo teria cuidado.

Tigrilelar

Nos últimos tempos os tigres estão tristes demais. Tão tristes que silenciaram. Percebem que o fogo vem se apagando.
A tristeza é forte. A carne é fraca. E as traças, escondem-se no escuro.
Um tigre se levanta e clama:
- Não deixem de tigrilelar!

segunda-feira, abril 09, 2007

Ligue-pontos

O mundo é pontuado por momentos alegres e tristes. Difícil não é perceber isso, mas sim ligar os pontos.
Eu percebo, mas não ligo.

sexta-feira, abril 06, 2007

Lugar nenhum

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus
Tempo de absoluta depuração
Tempo em que não se diz mais: meu amor
Porque o amor resultou inútil
E os olhos não choram
E as mãos tecem apenas o rude trabalho
E o coração está seco

(Drummond, em Os ombros suportam o mundo)

domingo, abril 01, 2007

.

O mundo é cruel tigres, mas não desanimem. E traças, o alimento ainda não acabou.



www.ovelhodeitado.blogspot.com

domingo, março 11, 2007

quinta-feira, março 08, 2007

terça-feira, março 06, 2007

Casa grande e senzala

Ele perambulava por toda a fábrica, mas nunca se sabia como é que chegava. Não se sabia porque sua cabeça se inclinava de tal forma que a vista apontava direto ao chão. Conhecia as rachaduras no piso decor. Toda vez que era bipado, colocava o cinto cheio de ferramentas nas quais duas ou três seriam suficientes para todo o trabalho. Não corria. Por maior que fosse o desespero, não corria. Dia desses chegou na máquina, levantou os olhos para o operador e disse:

- O que foi?
- Não sei. Eu tava trabalhando normal aqui e parou do nada. Não funciona porra nenhuma. O Moreira tá puto comigo porque a máquina ficou parada a semana toda. Não dá pra dar um jeito não?
- Eu preciso de um dia. Em um dia eu dou um jeito. Vocês nunca me dão um dia, então que fique quebrando.
- Eu não posso, liga pro Moreira e pede.
- Não vou pedir porra nenhuma, o desgraçado grita até com a mãe.
- Eu vou avisar que a máquina parou então.

Joaquim ficou olhando a máquina. Sabia o que era e precisava de um dia. Voltou ao seu setor e pegou o que era necessário para o trabalho. Quando voltou, topou com o Moreira gritando com o operador:

- Ele não arrumou essa porra ainda?

Ele ficou atrás do Moreira, olhando. O Moreira era um maldito que não entendia nada e por causa disso compensava com rudeza e potência de voz. Mas com o Joaquim ele não gritava, tinha medo do olhar rancoroso do eletricista. Quando o chefe percebeu que Joaquim estava ali, virou gentilmente e perguntou:

- Quanto tempo a máquina vai ficar parada?
- Eu preciso de um dia.
- Um dia? Não tem como dar um jeito? Um dia é muito porra! O seu Alex vai ficar doido. Dá um jeito aí Joaquim. Não dá pra essa máquina ficar parada. Se não der, liga você para o seu Alex e informa.
- Eu vejo se dou um jeito.

Joaquim abaixou a cabeça e seu Moreira saiu resmungando. O operador olhou para ele e disse:

- É Joaquim. A gente precisa de máquina porque senão o cliente reclama.
- Que cliente o caralho! Você é uma porra de um peão, nem sabe o nome do maldito engravatado que encheu o cú do seu chefe de dinheiro. Não fica me falando merda.

O operador ficou resmungando igual ao seu Moreira.
O telefone tocou. era seu Alex. Queria falar com o "rapaz da manutenção".

- Viu, o Moreira me disse que você quer um dia?
- Não precisa mais não seu Alex, eu dei um jeito aqui.
- Ah bom! Eu achei que já ia ter que te internar num manicômio! Já está virando a máquina então?
- Já.
-Ótimo.

Joaquim desligou o telefone, escolheu a chave de fenda que menos usava no seu cinto, cravou a ferramenta no painel da máquina e disse:

- Pode virar agora. Amanhã a gente se vê de novo.

domingo, março 04, 2007

Antes do beat da beata

Não segure muito seus instintos
Porque isso não é natural
Saluceie para acordar um grito forte
Quando queira gritar
É saudável, relaxante, recupera
E faz bem a cabeça
Por isso canta, dança, grita

Vá em frente entre numa boa
Não controle, não domine, não modele
Tudo isso faz muito mal
Deixe que a mente se relaxa
Faça o que mandar o coração
Por isso canta, dança, grita

Chega de fugir, de se esconder
E de deixar a vida pra depois
Como se tivesse o tempo inteiro
O tempo corre nada vai te esperar
Entra de cabeça nos seus sonhos
Só assim você vai ser feliz
Por isso canta, dança, grita

Não se reprima
Pode gritar

(Menudos, em Não se reprima)

quinta-feira, março 01, 2007

Os passos da menina apertaram-se. Hoje escurecera cedo.
Pela manhã a garota se vestira com uma malha de ginástica e pusera seu boné cor de rosa na cabeça.
Estava pronta, com sua bicicleta nos braços esperando pelo pai. Ouviu uma buzina. Espiou pela janela da sala num pulo, despediu-se da mãe. Seu pai havia chegado. Os dois tinham combinado um passeio no parque. O homem, que já beirava os 40, não acreditava como sua menininha estava se tornando uma bela moça. "Treze anos". Os cabelos bem compridos e amarrados pelo vão do boné, já não eram os mesmos que o pai costumava acariciar, no colo, anos atrás.
Desde que se separaram, o pai via esses momentos de prazer e diversão ao lado da menina rerearem-se com o passar dos dias.
Àquela manhã foi inesquecível. E o almoço foi o momento onde colocaram o papo em dia. Para orgulho do pai, a menina ia muito bem na escola. Fora chamada até mesmo para presidir um grupo de estudos. Hoje haveria uma das reuniões, na casa de uma das colegas.
O pai não pudera esconder que ficara chateado, mas entendia que alguns compromissos só deixavam a filha mais responsável e preparada para as dificuldades da vida.
Depois daquele almoço, onde abrira mão de encontrar-se com a filha, o pai levou-a ao prédio onde morava a colega. Despediram-se com um beijo doce, como só havia entre um pai e sua filha.
Os passos da menina apertaram-se. Hoje escurecera mais cedo.
Atrás dela, andava um homem, que jamais fora pai nem tivera um. Alguém que sequer imaginou o tamanho da dor que causou e outro pai, aquele que andou no parque, almoçou e beijou sua filha pela última vez naquele dia.

Perdoando Deus

Enquanto eu inventar Deus, ele não existe.

(Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina)

sábado, fevereiro 24, 2007

Quem tem medo do lobo mau?

O fato é:
se na minha casa há muros altos e portões fechados
se na minha rua as pessoas entram às onze da noite
se no meu bairro os vigias noturnos patrulham e despatrulham
se na minha cidade há mais condomínios fechados que favelas
se no meu estado dizem que o marcola é o governador
se no meu país o presidente diz "terroristas!"

não seria porque o Willian Bonner tem mais medo do lobo mau que qualquer um aqui?

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Com que roupa eu vou pro samba?

Se forem fazer sexo,
seguro é vestir camisinha.
As fantasias são opcionais.

Beijo pra quem é de beijo,
abraço pra quem é de abraço,
se cuidem e boa folia!

"Ô abre alas que eu quero passar
Eu sou da lira não posso negar
Rosa de ouro é quem vai ganhar"

(Chiquinha Gonzaga, em Ô abre alas)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

quem era foda

quem era foda, se fudi
~móveis coloniais de acajú, e agora gregório?

como pode?

Mas como pode um ser humano sentir-se só no meio de um mundo desses? - era o que se perguntava. Mas antes, levantara-se naquele dia comum como qualquer dia de seu cotidiano repetitivo e rotineiro de forma preguiçosa e mal-humorada, mijara, lavara-se, vestira-se, partira-se, balbuciando ofensas impronunciáveis num texto deste tipo de circulação, enfim, não deixava de cumprir seu procedimento operacional padrão de acordar. O dia nascera semi-banal, desses que prometem não prover o cotidiano de absolutamente nada diferente que possa atrapalhar essa maravilha da sabedoria humana a que se convencionou chamar de rotina. Mas como dizíamos, teve inclusive seu costumeiro devaneio sonífero em pleno ônibus atrapalhado por uma pequena confusão entre sonolentos senhores e garotos empolgados, e não pôde completar o raciocínio e entender como podia um ser humano sentir-se só naquele tipo de situação: encontrava-se dentro de um meio de transporte coletivo lotado, o que aproximava muito as pessoas, até demais, arriscar-se-ia a dizer, e que além de tudo, viajavam seguindo um objetivo comum, mesmo que não fossem ao mesmo lugar, ou em busca da mesma quantia, todos ali compartilhavam do âmbito comum de comparecer como era dever de cada um ao seu emprego ou qualquer outra forma de ganha-pão que se freqüentasse por aquelas paradas, e pertenciam mais ou menos à mesma classe social. Todos ali eram, portanto, companheiros em potencial, possíveis amigos até, e alguns expoentes de simpatia extremamente desenvolvida realmente demonstravam ser isso uma verdade, mas ainda assim uma barreira mística os impedia de se relacionar, como se a vida comum fosse apenas um desvio de caminho a que todos infelizmente eram obrigados a se sujeitar, como se as pessoas às suas voltas fossem apenas companhias descartáveis que forneciam uma pseudo-confortável sensação de união. E como podia um ser humano sentir-se só? Não sabia.

Monstros S.A.

Já fizeram tanta coisa por aí que hoje se faz errado mesmo sabendo, também acontece de fazer certo não sabendo. É verdade que não por aventura, desafio, talvez sim por esse jeito fácil de sobreviver. Porque viver não é brincadeira não. E já que ética virou uma tática para cada um, podemos ter moral ou não ao piscar os olhos. Assim construímos monstros e semideuses, e assustados se estamos errados sabendo, ou certos não sabendo, chamamos isso ou aquilo de monstruosidade.

domingo, fevereiro 11, 2007

Monstruosidade?

Sabia que era errado mas fez. Fez não por desafio, por aventura. Fez porque era o jeito fácil de fazer e sobreviver. Mesmo fazendo o que era errado, sabia que não era tão errado quanto tanta coisa que já fizeram por aí. Também havia ali uma moral a ser seguida e que, não obstante, muita gente acabava seguindo.
Mas o problema foi que durante o pequeno erro, piscou-se o olho e outro pior aconteceu. Aquilo até para ele era errado demais. Tão errado foi que chamou-se aquilo de monstruosidade.
De um erro a outro basta um piscar de olhos. A gente se assusta, mas é exatamente disso que todos somos capazes; sem intenção, é claro.

Os rascunhos libertinos foram atualizados.