segunda-feira, maio 21, 2007
Por que choro assistindo Forrest Gump?
Choro porque ele se liberta.
E a inocência vence, afinal.
domingo, maio 13, 2007
Cantiga para não morrer
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Ferreira Gullar de Dentro da Noite Veloz (1962-1975)
poema retirado do Jornal da poesia
domingo, abril 29, 2007
O menino e o ralo
Hoje vi um menino. Ele brincava no pátio, pisando as grades que o rodeiam, aqueles longos ralos por onde corre a água da chuva. Era jovem, muito jovem o menino, e para ele, eram enormes aqueles ralos, pisava-lhe as grades com os dois pés e ia por ali andando, nas pontas a grade bambeava e batia de volta no chão, fazendo aquele barulho de metal, e ele ria, ria e dava voltas e mais voltas sobre o ralo.
Lembro também dos ralos de minha infância, quando os pisava eu também com os dois pés e sobre eles andava, ouvindo os sons que faziam as grades ao chocarem-se com as bordas, quantas vezes ouvi minha mãe dizer que qualquer dia eu caía nalgum daqueles buracos. Lembro de quando inauguraram um calçadão por lá, que tinha uns bueiros enormes no meio, umas grades retangulares muito mal encaixadas nas bordas e que davam num bueiro fundo em que cabia em pé um menino do meu tamanho na época. Era um terror. Mas fazia um barulho tão bonito ao ser pisado, quando as grades batiam, que não podia deixar de pisá-los, às vezes mesmo pular sobre eles, quando não olhavam as mães.
Vendo ali o menino, que é muito mais jovem do que eu nessa época, lembro dos ralos de minha infância, ele ainda aí, dando voltas e voltas nos ralos que dão voltas no pátio em frente à repartição. Vejo-o rir enquanto caminha sobre aqueles ralos onde hoje apago meus cigarros, até acendi o de seu pai que nem imagina que também eu me divertia sobre os ralos dos pátios de minha infância, onde outros homens amargos apagavam seus cigarros. Ele dizia não vá longe, e o menino ia. Uma hora olhou para mim e disse é só falar. Eu ri e concordei. É mesmo só falar.
Meu cigarro acabou, e eu jogo a bituca naquele ralo onde agora reina o menino.
O menino ali, nos ralos, se diverte.
E eu tenho que voltar à porra da repartição.
sexta-feira, abril 20, 2007
Soneto de Criação
De uma argila bem doce e bem morena
Deu-te uns olhos minúsculos de china
Que parecem ter sempre um olhar de pena.
Banhou-te o corpo numa fonte fina
Entre os rubores de uma aurora amena
E por criar-te assim, leve e pequena
Soprou-te uma alma calma, cálida e divina.
Tão formosa te fez, tão soberana
Que dar-te aos anjos por irmã queria
Mas ao plasmar-te a carne predileta
Deus, comovido, te criara humana
E para tua justa moradia
Atirou-te nos braços do poeta.
de Vinicius de Moraes , que poderia ter ido ao bar com algum dos tigres, se os conhecesse.
O que poderia ter sido
fez-se novamente o pranto,
com tudo o que poderia ter sido,
com tudo o que dela já se fez.
Quando poderiam voltar os sorrisos, os flertes,
as bobagens indispensáveis do viver,
bateste com a porta na minha frente,
fizeste meu peito romper.
Quando o futuro tornou-se breu
no olho mágico da porta que me ofereceste,
só o que fiz foi sentar encolhido, com a cabeça entre as pernas e,
com a voz grave e triste, dizer:
- Um dia ela vem.
E até hoje espero.
O tigre 3, sempre esperando, a besta.
terça-feira, abril 10, 2007
A traça e a boneca
Linha e agulha precisam andar depressa. Mais um remendo do amor que não foi.
Pobre coração de pano. Antes fosse de seda, mas é do mais vagabundo algodão. A traça faz a festa enquanto a boneca chora, sozinha, esquecida, em meio à tantos outros brinquedos usados.
A boneca só precisava de carinho, mas como era boneca velha foi recusada até pela traça.
Triste vida de boneca de pano sem dono. Bem feito, fosse boneca de porcelana todo mundo teria cuidado.
Tigrilelar
A tristeza é forte. A carne é fraca. E as traças, escondem-se no escuro.
Um tigre se levanta e clama:
- Não deixem de tigrilelar!
segunda-feira, abril 09, 2007
Ligue-pontos
Eu percebo, mas não ligo.
sexta-feira, abril 06, 2007
Lugar nenhum
domingo, abril 01, 2007
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www.ovelhodeitado.blogspot.com
domingo, março 11, 2007
quinta-feira, março 08, 2007
terça-feira, março 06, 2007
Casa grande e senzala
- O que foi?
- Não sei. Eu tava trabalhando normal aqui e parou do nada. Não funciona porra nenhuma. O Moreira tá puto comigo porque a máquina ficou parada a semana toda. Não dá pra dar um jeito não?
- Eu preciso de um dia. Em um dia eu dou um jeito. Vocês nunca me dão um dia, então que fique quebrando.
- Eu não posso, liga pro Moreira e pede.
- Não vou pedir porra nenhuma, o desgraçado grita até com a mãe.
- Eu vou avisar que a máquina parou então.
Joaquim ficou olhando a máquina. Sabia o que era e precisava de um dia. Voltou ao seu setor e pegou o que era necessário para o trabalho. Quando voltou, topou com o Moreira gritando com o operador:
- Ele não arrumou essa porra ainda?
Ele ficou atrás do Moreira, olhando. O Moreira era um maldito que não entendia nada e por causa disso compensava com rudeza e potência de voz. Mas com o Joaquim ele não gritava, tinha medo do olhar rancoroso do eletricista. Quando o chefe percebeu que Joaquim estava ali, virou gentilmente e perguntou:
- Quanto tempo a máquina vai ficar parada?
- Eu preciso de um dia.
- Um dia? Não tem como dar um jeito? Um dia é muito porra! O seu Alex vai ficar doido. Dá um jeito aí Joaquim. Não dá pra essa máquina ficar parada. Se não der, liga você para o seu Alex e informa.
- Eu vejo se dou um jeito.
Joaquim abaixou a cabeça e seu Moreira saiu resmungando. O operador olhou para ele e disse:
- É Joaquim. A gente precisa de máquina porque senão o cliente reclama.
- Que cliente o caralho! Você é uma porra de um peão, nem sabe o nome do maldito engravatado que encheu o cú do seu chefe de dinheiro. Não fica me falando merda.
O operador ficou resmungando igual ao seu Moreira.
O telefone tocou. era seu Alex. Queria falar com o "rapaz da manutenção".
- Viu, o Moreira me disse que você quer um dia?
- Não precisa mais não seu Alex, eu dei um jeito aqui.
- Ah bom! Eu achei que já ia ter que te internar num manicômio! Já está virando a máquina então?
- Já.
-Ótimo.
Joaquim desligou o telefone, escolheu a chave de fenda que menos usava no seu cinto, cravou a ferramenta no painel da máquina e disse:
- Pode virar agora. Amanhã a gente se vê de novo.
domingo, março 04, 2007
Antes do beat da beata
Não segure muito seus instintos
Porque isso não é natural
Saluceie para acordar um grito forte
Quando queira gritar
É saudável, relaxante, recupera
E faz bem a cabeça
Por isso canta, dança, grita
Vá em frente entre numa boa
Não controle, não domine, não modele
Tudo isso faz muito mal
Deixe que a mente se relaxa
Faça o que mandar o coração
Por isso canta, dança, grita
Chega de fugir, de se esconder
E de deixar a vida pra depois
Como se tivesse o tempo inteiro
O tempo corre nada vai te esperar
Entra de cabeça nos seus sonhos
Só assim você vai ser feliz
Por isso canta, dança, grita
Não se reprima
Pode gritar
quinta-feira, março 01, 2007
Perdoando Deus
“Enquanto eu inventar Deus, ele não existe.”
(Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina)
sábado, fevereiro 24, 2007
Quem tem medo do lobo mau?
se na minha casa há muros altos e portões fechados
se na minha rua as pessoas entram às onze da noite
se no meu bairro os vigias noturnos patrulham e despatrulham
se na minha cidade há mais condomínios fechados que favelas
se no meu estado dizem que o marcola é o governador
se no meu país o presidente diz "terroristas!"
não seria porque o Willian Bonner tem mais medo do lobo mau que qualquer um aqui?




